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Quem ama não mata

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Feministas históricas de Belo Horizonte reeditam o ato que denuncia a violência contra as mulheres

Trinta e oito anos depois, na noite desta sexta-feira, 9, a partir das 18 horas, será reeditado na Praça Afonso Arinos, no Centro de Belo Horizonte, o ato ‘Quem Ama Não Mata’, para denunciar a violência contra a mulher e o feminicídio. O evento será marcado por muita música, performance, dança, poesias, rappers, DJs, apresentadoras profissionais etc., com direção do ator Adyr Assumpção e produção da promotora de eventos Nely Rosa.

“Neste ano, diante do recrudescimento da violência contra as mulheres – dados comprovam um aumento de mais de 100% nos últimos dez anos -, e, no meu caso, pelo assassinato da advogada do Rio Grande do Sul, Tatiane S. , novamente nos unimos e resolvemos ‘fazer algo’. Aí o Ato de 1980 foi novamente nossa inspiração. Aquele ato, tão simples, continua com uma potência enorme. O slogan “Quem ama não mata” é muito poderoso. Só que o ato de agora, naturalmente, está adaptado aos dias de hoje”, contou a jornalista Mirian Chrystus de Mello e Silva.

“Antes, nós feministas falávamos pelas mulheres trabalhadoras rurais, pelas prostitutas. Agora elas estão lá no Ato, falando por si mesmas. O feminismo negro está lá de forma muito crítica ao feminismo hegemônico branco – aquele nosso de 1975. Agora as pessoas não têm paciência de ouvir discursos, então, eles serão muitos, cerca de 17, mas cada um com dois minutos”, prosseguiu Mirian. O primeiro ato aconteceu em 18 e agosto de 1980, nas escadarias da Igreja São José, no centro de Belo Horizonte. Foi originado dentro da TV Globo local, da indignação de três jornalistas (Dagmar Trindade, Antonieta Goulart e Mirian) pela morte, no espaço de duas semanas, de duas mulheres assassinadas por seus maridos: Heloísa Ballesteros e Maria Regina Souza Rocha. O primeiro por desconfiança de traição.

“No julgamento, me marcou ele descrever a última noite, anterior ao assassinato, em que ele percebeu sinais de ‘esfriamento’ por parte dela durante o ato sexual. Ali ela assinou a sua morte, naquela ‘frieza’. O segundo, por não aprovar os novos hábitos dela, que ‘tinha dado para fumar’. Foi morta ainda com o uniforme de ginástica, ao voltar da academia para casa”, observou Mirian.

“Cobraram de nós, jornalistas, que mulheres pobres eram assassinadas todos os dias nas favelas; nós sabíamos, éramos jornalistas. Mas sabíamos também que duas mulheres de classe média e alta assassinadas davam uma boa pauta. Não éramos ingênuas. O ato que ficou conhecido como Quem Ama Não Mata (originado da frase anônima, pichada em muros de BH, “Se se ama não se mata”) foi muito simples. Mas original para os padrões da época, porque foi em plena ditadura”, lembrou a jornalista. “Reuniu cerca de 400 mulheres que seguravam velas e rosas vermelhas (doadas pela dona do Sobradão da Seresta, no bairro Santa Tereza). Falaram umas seis ou mais pessoas, entre elas, o deputado Genival Tourinho, a poetisa Adélia Prado, que veio de Divinópolis, Maria Campos, pela Liga das Mulheres Católicas, uma feminista do Rio e eu, que li um manifesto que escrevi de uma vez só. E que começava com um poema anônimo, lido por mim na revista Senhor, provavelmente em 1968 ou 1969, no Colégio Estadual Central. O único poema que guardei de cabeça:

‘Senhora, aqui está vossa chave para vos abrirdes quando quiserdes e com quem quiserdes 

porque maior que a dor de vos perder

é a dor de vos deixar presa nesses ferros’.

Em Minas, mil anos depois, prosseguia eu, os homens matam as mulheres que querem a separação… etc, etc. E reivindicávamos a redemocratização do país alertando que a democracia tinha que começar ‘dentro das nossas casas’. Dali nasceram a frase ‘Quem ama não mata’ (que virou série da Globo) e o Centro de Defesa da Mulher, que iniciou pesquisa sobre o tema “violência contra a mulher” e promoveu o atendimento de mulheres que sofriam violência doméstica e reivindicava a criação de delegacias especializadas no atendimento a mulheres (que foram criadas por todo o país a partir de 1985).” Enfim, será um ato feminista, cultural, político, no sentido amplo, porque é suprapartidário. Os Jornalistas Livres vão cobrir o evento ao vivo pelo Facebook.

Por Aloísio Morais | Jornalistas Livres | Foto: Lucas Fritze

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