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Um século de desafios educacionais na América Latina, segundo Rodal

RODAL
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A Gazeta Histórica de Felipe Pigna, publicação argentina de ElHistoriador.com.ar, divulgou entrevista de Fernando Rodal, presidente da Confederação Americana de Educadores (CEA), realizada por Mariana Pacheco. Nela, Rodal aborda os desafios da educação e de seus profissionais na América Latina, desde a Reforma de Córdoba.

Que impacto a Reforma Universitária de Córdoba teve em 1918 na América Latina?

Rodal: Responder a essa questão exige a repetição de interpretações que, como todos sabemos, podem e são variadas, dependendo da visão, do seu ponto de observação e de seus objetivos. No entanto, houve elementos materiais inevitáveis e presentes em qualquer abordagem do que aconteceu em 1918 em Córdoba, que deu origem ao que hoje chamamos Autonomia e Cogovernança Universitária, resultado do confronto entre reformistas e clérigos conservadores.

Isto pressupunha uma forte disputa com um dos setores dominantes da sociedade para cuidar também da gestão universitária, buscando a democratização e a promoção de natureza científica da universidade, que significou trabalho coletivo e representação ampla.

Um aspecto a salientar é a presença do estudante, como motor, ontem e hoje, das reformas que ocorrem e que se refletem no Manifesto Liminar, de junho de 1918, que diz: “Os jovens já não pedem”, “Se você foi capaz de fazer uma revolução nas consciências, não pode ignorar a capacidade de intervir no governo de sua própria casa”. Acrescente-se a isso uma autopercepção desse movimento como espaço de luta anti-imperialista e com vocação para a integração latino-americana.

Estamos longe de tentar explicar em grande detalhe os eventos, mas podemos afirmar que na área acadêmico-sindical tiveram impactos significativos sobre as ações táticas e estratégicas das organizações, que se refletem ainda hoje em suas demandas e propostas, que são basicamente observadas na defesa do ensino universitário público, livre e laico e no dever do Estado de garantir seu correto funcionamento.

Como você descreveria o ensino superior de hoje nos vários países da América Latina?

Rodal: O ensino superior na América Latina está passando por um longo período de busca, no sentido de ser capaz de coincidir com os tempos econômicos, políticos e sociais de seus povos e nações. Aparece em cena uma forte disputa do setor privado para aproveitar este mercado fantástico. No Brasil, por exemplo, um dos empresários do setor foi classificado há alguns anos como um dos homens mais ricos do país. Hoje, também empresas multinacionais competem pelo mercado latino-americano e mundial de educação. Isso significa que entre 70 e 80 por cento da taxa de matrícula da faculdade em nossa região estão nas mãos do setor privado, enquanto a pesquisa para produzir desenvolvimento inverte esses números no setor público.

Isso não só desafia o papel de cada espaço (público e privado) e da regulação necessária, mas, principalmente, afeta nossas democracias como garantias dos direitos humanos e do acesso gratuito à educação de terceiro nível como um direito básico dos indivíduos, e não apenas como cliente/consumidor de serviços educacionais.

Quais são os principais problemas hoje da formação de professores e quais os desafios para o futuro?

Rodal: A atuação docente na universidade passou por profundas mudanças nos últimos 30 anos, que são permanentes e visam a consolidar a ação mais adequada às necessidades e objetivos estabelecidos pelos centros de estudos. Um elemento a considerar foi a abordagem pedagógica formal, pois, em muitas ocasiões, os professores não possuíam formação específica nessa área, exceto pela experiência prática desenvolvida com base em seus conhecimentos técnico e científico. Outro elemento importante é a busca de liderança que facilite a geração e transferência de conhecimento. Isso é visto no quadro de uma consciência crítica da realidade social, que permite maiores realizações nos graus de evolução das nossas sociedades.

Nesse sentido, a formação de professores deve imprimir, em suas ações transformadoras, o poder de observar com atenção os mecanismos de ensino/aprendizagem, para então poder avaliá-los de forma abrangente. Isso não deve estar sujeito a aspectos punitivos, mas essencialmente de natureza corretiva.

Assim, os professores também devem estar preparados para não só atender ao mercado de trabalho, mas também e sobretudo construir sociedades que preservem a paz, a justiça social e o desenvolvimento sustentável como pilares para o futuro da humanidade, para o combate às enormes desigualdades que existem em nosso planeta.

É evidente que a ação docente “sofrerá” com as tensões que se desenvolvem ao tentar resolver e intervir nas questões que o mercado reivindica, quase exclusivamente, como suas. Confrontado com esse problema enorme, aprender a viver com essas contradições significa prestar atenção às táticas e submetê-las a uma análise rigorosa, o que deve estar longe de ser complacente e muito perto de uma abordagem pró-ativa para introduzir na prática diária uma alta dose de criatividade e inovação.

Até que ponto o ensino superior se adapta e responde aos desafios das necessidades atuais?

Rodal: A educação universitária tem como desafio central a correta identificação dos problemas prioritários das sociedades que integra, a fim de construir agendas socialmente relevantes com atores sociais, articulando, através de seus planos, seus alunos de graduação e pós-graduação com a referida realidade. Deve tratar da chamada “massificação” do setor, cumprindo a premissa de fortalecer a democratização do acesso à educação universitária. Construir e promover, em conjunto com o setor produtivo, programas e mecanismos que permitam a implementação de novas tecnologias, criando alianças para o avanço na pesquisa para o desenvolvimento.

Essa abordagem dá um sentido concreto à contribuição da universidade pública – em particular –, à melhoria permanente dos aspectos transcendentais na vida de nossos países e “devolve”, em conhecimento, o investimento feito por toda a sociedade através do pagamento dos seus impostos.

Quais países você considera na vanguarda em educação superior em termos de acesso, qualidade da educação e produção de trabalho?

Rodal: Estes temas representam um dos pontos nodais que são apresentados como um desafio histórico para as universidades. Em relação ao acesso, podemos dizer que coexistimos com modelos abertos e semiabertos (condicionados a testes de admissão com cotas). Isso tem gerado uma enorme quantidade de pontos de vista e ações institucionais baseadas na busca da excelência ou da chamada qualidade da educação; no entanto, muitas vezes escondendo – sob este legítimo debate – a falta de financiamento para as universidades públicas, o que claramente atenta contra o livre acesso por nós defendido, entendido como um caminho claro para diminuir a fragmentação social no que diz respeito à apropriação do conhecimento científico e sua relação com a qualidade de vida das pessoas.

Sobre a qualidade de ensino, reafirmamos um princípio orientador: deve ser ligada aos diferentes níveis que apresentam nossas sociedades em termos sócio-econômicos, como, por exemplo, se os membros de uma comunidade indígena podem aprender, desenvolver e otimizar sua experiência nas áreas que possamos considerar (agricultura, têxteis etc.), e se esses produtos não são tão competitivos no mercado mundial, eles também podem desempenhar uma função muito importante para a subsistência da comunidade e seu subsequente desenvolvimento sustentável.

Outras diferenças ocorrerão no campo da ciência e da tecnologia de ponta e terão que encontrar nichos possíveis de desenvolvimento, com uma visão integradora política, social e econômica, que pode e deve facilitar a complementaridade regional nestas áreas, hoje claramente em crise em nossa região – produto de uma situação de baixa credibilidade da cidadania em geral no sistema político e suas instituições.

Isso é gerado pela fraca resposta dos governos às demandas e necessidades de uma vida digna, o que também afeta o humor do verdadeiro investimento e aumenta o risco de retorno do capital em um quadro político-institucional de elevada incerteza . Em suma, uma qualidade educacional, para ser bem sucedida, deve sempre ser socialmente referenciada.

Um aspecto igualmente importante é a melhoria da ação sistêmica e sistemática em todo o sistema educacional, para além de cada um de seus subsistemas, que nos permita coordenar adequadamente a continuidade do ensino ao longo da vida de um indivíduo. Isso implica em mudar uma dinâmica muito frequente, que é a de buscar culpados na baixa formação entre os diferentes subsistemas da área, e encontrar e executar propostas coordenadas e superiores.

Essa temática, em particular, estamos desenvolvendo atualmente com o Parlamento Latino-Americano, através de sua Comissão de Educação, e esperamos continuar o seu tratamento específico, em Havana, Cuba, na primeira semana de fevereiro, por ocasião da Pedagogia 2019. Finalmente, e em referência aos nomes dos países que podem ser mencionados nesses itens, não há nenhum que os cumpra integralmente. Por exemplo, Uruguai e Argentina têm ingresso aberto e garantem gratuidade. Cuba tem exames de admissão, mas oferece alternativas para aqueles que não superem esse nível. México e Brasil, por terem exemplos visíveis, têm exames de admissão com cotas, e isso gerou uma reivindicação histórica do aluno, ainda não resolvida, juntamente com a busca pela “qualidade” há muito almejada.

Obviamente, os graduados em universidades públicas como a USP, de São Paulo, Unicamp, de Campinas (Brasil) ou Unam (México), para citar alguns exemplos, quase sempre são preferidos aos graduados no setor privado. Isso, de certa forma, favorece claramente o seu acesso e permanência no mercado de trabalho, destacando-se a área das chamadas “ciências exatas”, porque em ciências sociais há uma forte intervenção e oferta do setor privado.

A ideia de “país” e “universidade” como algo homogêneo em relação a essa questão é difícil de observar. Por isso, destacam-se certas universidades que figuram no topo da classificação de qualidade, mais do que seus países. Esse é o resultado da organização social que temos e, portanto, essa confusão é frequente. É muito claro que as camadas mais amplas das populações latino-americanas não alcançam esse patamar de estudos, o que desafia a universidade pública e o Estado como um agente de transformação das condições de vida de seu povo.

Qual é o panorama do sindicalismo universitário hoje?

Rodal: O sindicalismo universitário está em um estágio de reconstrução organizativa desde a queda do Bloco Oriental, um fato que teve impacto em todo o sindicalismo educacional mundial, em todos os níveis.

Hoje, no caso da CEA, mantemos nossa definição histórica e estamos convencidos do caminho da unidade na diversidade como um fato da realidade que não podemos e nem devemos ignorar. Obviamente, a ideia de organizar-se em torno de um tronco político-ideológico determinado, representado nas centrais mundiais dos trabalhadores, persiste com força.

A famosa multilateralidade que se apregoa (e muito pouco se pratica) na esfera geopolítica global também impregna o discurso sindical, embora reconheçamos que existem e que enfrentamos hoje, como no passado, uma tendência para a excessiva centralização das decisões e em muitos casos reproduzindo uma visão eurocêntrica da realidade, derivada da necessidade operativa e geralmente ligada a aspectos relacionados ao nosso grau de desenvolvimento relativo.

O desafio para a CEA é aproximar-nos desse equilíbrio de combinar um certo grau de centralidade que respeite e se articule com as decisões locais, regionais e globais. Essa nova maneira de construir o “internacionalismo” é o que está em jogo no momento para as organizações sindicais universitárias e da educação em geral.

Quais os principais desafios da educação universitária para o futuro?

Rodal: Uma das principais é tornar-se uma casa de estudos, que realmente permita o acesso e permanência com sucesso dos mais amplos setores sociais, não só por uma necessidade de justiça social, mas como motor do desenvolvimento humano, abrangente e inclusivo. Obviamente, temos a necessidade de ampliar a pesquisa que permita inovar adequadamente e, dessa maneira, poder atuar no cenário mundial com maior sucesso.

Sabemos cada vez mais que a “inteligência”, seja humana ou artificial, é o caminho sem volta da ciência e, portanto, de impacto direto em nossas vidas concretas. Como vamos resolver essa nova equação é um dos temas centrais, mas ninguém duvida da necessidade urgente de ampliar para as mais amplas camadas da sociedade os graus de conhecimento científico e tecnológico, disso depende a construção de um futuro que corresponda às necessidades integrais das pessoas e do meio ambiente.

Quais são as principais realizações da CEA?

Rodal: Quando alguém tenta responder a essa pergunta sem recorrer ao “marketing sindical” (entenda-se relatar “êxitos”), as avaliações devem ser sempre de longo prazo. Nesse sentido, identifico três etapas centrais na vida desta organização nos últimos 25 anos:

– Construção de altos níveis de UNIDADE SINDICAL na década de 90, o que permitiu um poderoso acúmulo de forças no nível continental. Isso transformou o setor em um dos baluartes no confronto com as políticas neoliberais em voga e em pleno auge. Posicionando a defesa da educação pública como eixo unificador de luta acadêmica-sindical, em um momento de promoção feroz da privatização da educação e dos serviços públicos, em que todos nós lembramos Fukuyama dizendo: “é o fim do a história”…

– A ação sindical se tornou uma busca por alianças político-sindicais-sociais (com acertos e erros), colaborou de forma muito importante para a chegada dos chamados governos progressistas e, como resultado disso, da necessidade urgente de mudar as políticas de ajuste permanente nos salários e nas condições de vida da população.

Obviamente, isso não inclui uma análise do sucesso ou não desses governos – que merece um capítulo à parte –, mas ninguém pode negar que a necessidade de mudança social é um elemento sempre presente, especialmente para aqueles que representam os interesses dos trabalhadores e setores mais fracos do tecido social. Atualmente, enfrentamos os mesmos desafios, em novos momentos e com novos atores em cena.

Hoje, estamos em uma fase de reconstrução organizacional, que coexiste e é dada no contexto de aprofundamento da crise social em nossos países (com poucas exceções), o que nos leva de volta ao que eu chamo “o inevitável espelho dos anos 90”, com uma enorme vantagem, que é o aprendizado adquirido. Isso gera o desafio de compartilhá-lo e transmiti-lo de maneira aberta às novas gerações de sindicalistas.

Quais são os desafios da CEA para o futuro?

Rodal: Manter as bandeiras do respeito pela independência local, regional e continental na tomada de decisões, promovendo a integração sindical e política ao mundo, através de nossas próprias formas organizativas. Atualmente, priorizamos fortemente a nossa relação continental, mas tendo especial atenção, nessa fase, para o fortalecimento da relação transatlântica – Ibero-América em particular –, por razões históricas e políticas.

Em um mundo que se maneja com sucursais e representantes de poder concentrado, apostamos em um regionalismo aberto, um novo sindicalismo internacional, que reconhece o mundo global, possa integrar-se a ele, porém crescendo de baixo para cima.

Tradução do espanhol: Carlos Pompe – Publicado no portal Contee

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