Notícias

Escolas precisam de diálogo, não de polícia, diz especialista

20 de abril de 2023

Mesmo com a série de medidas tomadas pelo governo federal para enfrentar a onda de violência contra as escolas, as ameaças de ataques têm deixado a comunidade escolar apreensiva.

Para conversar sobre o assunto e sobre as possíveis causas e soluções, o Sinpro Minas entrevistou a psicopedagoga Flávia Maria de Campos Vivaldi. Doutora em Educação e mestre em Psicologia Educacional pela Unicamp, Flávia também é especialista em “Relações interpessoais e desenvolvimento da autonomia moral na escola” e faz parte do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Unicamp e Unesp).

Sinpro Minas: Nos últimos anos, foram várias as tentativas de enfraquecimento das escolas, como projetos a favor da educação familiar e campanhas de perseguição contra professores. É possível fazer uma relação entre esses fatos e os recentes ataques às escolas?

Flávia Vivaldi: Não dá para estabelecer uma causa direta, mas também não dá para desconsiderar que este cenário contribuiu para uma ausência de trabalho reflexivo na escola e de pautas sociais que tanto interferem no processo de intolerância. Indiretamente é algo que vai potencializando o nível de intolerância da sociedade e até de estudantes cujas famílias pensam dessa forma.

Sinpro Minas: Sabemos que tem havido um aumento do número de grupos de ódio em nosso país. Como conversar sobre isso com nossas crianças e adolescentes?

Flávia Vivaldi: É importante dialogar sobre uma análise do que está acontecendo, como os jovens e adolescentes percebem esses fenômenos e como entendem o porquê da escola ser um alvo. As respostas que eles trazem são pistas importantes para entendermos quais são os sentimentos presentes quando eles estão no espaço escolar. É preciso também orientar sobre a gravidade das brincadeiras com conteúdo de ódio, sobre o risco de disseminar notícias das quais não se sabe a veracidade e sobre como denunciar possíveis ameaças.

Sinpro Minas: Algumas pessoas defendem que haja a presença de seguranças armados nas escolas. Esse tipo de estratégia de fato ajuda a diminuir os casos de violência?

Flávia Vivaldi: As pesquisas são unânimes em apontar a ineficiência da polícia armada dentro da escola, no que diz respeito a minimizar ou neutralizar a possibilidade de ataques. Não só não previne o ataque como, em alguns casos, aumenta a possibilidade de outros casos de violência dentro da escola. Uma das pesquisas mostra que pode haver um controle da violência interna, mas o número de suspensões e expulsões aumenta, sobretudo dos estudantes negros. Por outro lado, temos que defender a ideia de que a escola não é um espaço para isso, e sim de vida, de desenvolvimento, de formação. Os representantes de segurança pública devem cuidar do espaço externo da escola, e não do interno.

Sinpro Minas: Quais medidas podem tornar a escola mais segura? E como a comunidade escolar pode ser inserida nesta discussão?

Flávia: As medidas de segurança se dão em muitas frentes. Todas as ações que são de responsabilidade da escola têm que ter um cunho formativo, que no mínimo reveja o trabalho que a escola oferece para qualificar as relações e garantir espaços de educação e escuta em sua comunidade. Outras providências precisam estar articuladas com isso, além de envolver outros setores como os da promoção social, da saúde mental – não numa perspectiva de tratamento individualizado, sempre numa perspectiva de construção coletiva –, e inclusive o trabalho da segurança pública nos arredores e áreas mais vulneráveis. É preciso uma mudança de paradigma no trabalho da educação, que continua muito centrado na produção do conhecimento das áreas das disciplinas diversas e esquece que democracia não nasce pronta, mas que precisa ser construída no dia a dia da escola.

Sinpro Minas: O governo federal anunciou uma série de medidas, como investimento em infraestrutura, equipamentos, formação e apoio à implantação dos núcleos de apoio psicossocial nas escolas. Qual sua opinião sobre este pacote de medidas?

Flávia: O governo teve que dar uma resposta imediata, mas o que me deu mais esperança é a abertura para repensar de fato o espaço escolar. Foi uma medida rápida e, mais do que tudo, um grande exemplo daquilo que a escola tem que ser: um espaço de escuta, de coordenação, de perspectiva. Quando o presidente chama estados, municípios e entidades para ouvir e traçar planos e medidas, isso mostra como a escola deve funcionar, num esforço coletivo. Menos ações individualizadas e mais ações coletivas.

COMENTÁRIO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Artigo
Ciência
COVID-19
Cultura
Direitos
Educação
Entrevista
Eventos
Geral
Mundo
Opinião
Opinião Sinpro Minas
Política
Programa Extra-Classe
Publicações
Rádio Sinpro Minas
Saúde
Sinpro em Movimento
Trabalho

Regionais

Barbacena
Betim
Coronel Fabriciano
Divinópolis
Governador Valadares
Montes Claros
Patos de Minas
Poços de Caldas
Pouso Alegre
Sete Lagoas
Uberaba
Uberlândia
Varginha