Mesmo com a série de medidas tomadas pelo governo federal para enfrentar a onda de violência contra as escolas, as ameaças de ataques têm deixado a comunidade escolar apreensiva.
Para conversar sobre o assunto e sobre as possíveis causas e soluções, o Sinpro Minas entrevistou a psicopedagoga Flávia Maria de Campos Vivaldi. Doutora em Educação e mestre em Psicologia Educacional pela Unicamp, Flávia também é especialista em “Relações interpessoais e desenvolvimento da autonomia moral na escola” e faz parte do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Unicamp e Unesp).
Sinpro Minas: Nos últimos anos, foram várias as tentativas de enfraquecimento das escolas, como projetos a favor da educação familiar e campanhas de perseguição contra professores. É possível fazer uma relação entre esses fatos e os recentes ataques às escolas?
Flávia Vivaldi: Não dá para estabelecer uma causa direta, mas também não dá para desconsiderar que este cenário contribuiu para uma ausência de trabalho reflexivo na escola e de pautas sociais que tanto interferem no processo de intolerância. Indiretamente é algo que vai potencializando o nível de intolerância da sociedade e até de estudantes cujas famílias pensam dessa forma.
Sinpro Minas: Sabemos que tem havido um aumento do número de grupos de ódio em nosso país. Como conversar sobre isso com nossas crianças e adolescentes?
Flávia Vivaldi: É importante dialogar sobre uma análise do que está acontecendo, como os jovens e adolescentes percebem esses fenômenos e como entendem o porquê da escola ser um alvo. As respostas que eles trazem são pistas importantes para entendermos quais são os sentimentos presentes quando eles estão no espaço escolar. É preciso também orientar sobre a gravidade das brincadeiras com conteúdo de ódio, sobre o risco de disseminar notícias das quais não se sabe a veracidade e sobre como denunciar possíveis ameaças.
Sinpro Minas: Algumas pessoas defendem que haja a presença de seguranças armados nas escolas. Esse tipo de estratégia de fato ajuda a diminuir os casos de violência?
Flávia Vivaldi: As pesquisas são unânimes em apontar a ineficiência da polícia armada dentro da escola, no que diz respeito a minimizar ou neutralizar a possibilidade de ataques. Não só não previne o ataque como, em alguns casos, aumenta a possibilidade de outros casos de violência dentro da escola. Uma das pesquisas mostra que pode haver um controle da violência interna, mas o número de suspensões e expulsões aumenta, sobretudo dos estudantes negros. Por outro lado, temos que defender a ideia de que a escola não é um espaço para isso, e sim de vida, de desenvolvimento, de formação. Os representantes de segurança pública devem cuidar do espaço externo da escola, e não do interno.
Sinpro Minas: Quais medidas podem tornar a escola mais segura? E como a comunidade escolar pode ser inserida nesta discussão?
Flávia: As medidas de segurança se dão em muitas frentes. Todas as ações que são de responsabilidade da escola têm que ter um cunho formativo, que no mínimo reveja o trabalho que a escola oferece para qualificar as relações e garantir espaços de educação e escuta em sua comunidade. Outras providências precisam estar articuladas com isso, além de envolver outros setores como os da promoção social, da saúde mental – não numa perspectiva de tratamento individualizado, sempre numa perspectiva de construção coletiva –, e inclusive o trabalho da segurança pública nos arredores e áreas mais vulneráveis. É preciso uma mudança de paradigma no trabalho da educação, que continua muito centrado na produção do conhecimento das áreas das disciplinas diversas e esquece que democracia não nasce pronta, mas que precisa ser construída no dia a dia da escola.
Sinpro Minas: O governo federal anunciou uma série de medidas, como investimento em infraestrutura, equipamentos, formação e apoio à implantação dos núcleos de apoio psicossocial nas escolas. Qual sua opinião sobre este pacote de medidas?
Flávia: O governo teve que dar uma resposta imediata, mas o que me deu mais esperança é a abertura para repensar de fato o espaço escolar. Foi uma medida rápida e, mais do que tudo, um grande exemplo daquilo que a escola tem que ser: um espaço de escuta, de coordenação, de perspectiva. Quando o presidente chama estados, municípios e entidades para ouvir e traçar planos e medidas, isso mostra como a escola deve funcionar, num esforço coletivo. Menos ações individualizadas e mais ações coletivas.
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